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The thing about real estate accounting is that you can, you can, add down the page or across the page and everything works out. Everyday, everything adds up. The, the total is always the sum of its parts. It’s, uh, clean. It’s clear. Neat, absolute. But my life, it, uh, it doesn’t add up. It, uh… Nothing connects to anything else. It’s, uh… I’m not, I’m not the sum of my parts. All my parts don’t add up to one… to one me, I guess.

fala do personagem de Philip Seymour Hoffmann em “Before the Devil knows when you´re dead”.

O que ele diz é quando lida com contabilidade o total é sempre a soma das partes. Mas em sua vida nada se soma, se encaixa, se conecta. Ele não se sente a soma de suas partes

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Volto de uma internação de um ano e meio. Não sinto aquela criatividade borbulhante, louco para rechear o texto com imagens. Na verdade nem sei porque comecei este post, ressuscitei este blog negro. Tenho outros blogs muito mais positivos. A questão de dar continuidade a um esforço que iniciei quando estava começando a  perder tudo. Essa motivação já basta.
Estou numa moradia assistida, o que significa que não posso sair sozinho. Nos primeiros dias tentei animar os outros residentes a brincar com jogos de tabuleiro, mas é raro conseguir parceiros. Então recorri à pornografia na internet para matar o tempo e dar uma relaxada da clausura. Mas esse é apenas um vício patético, portanto passei a me dedicar aos meus amados filmes. Aluguei uns recentes e me decepcionei, o cinema atual rasteja num brejo de mediocridade. Aí escolhi Breaking Bad, a série, e fiquei satisfeito. Mas escolher logo uma série centrada na produção e tráfico de entorpecentes num dos momentos mais delicados da minha recuperação pode ser perigoso. Batata, à noite sonhei que tentava comprar crack de todo jeito e não conseguia.
Aí entrei na onda do Facebook, chamei um monte de amigos de infância e conhecidos para me adicionar e comecei a pesquisar conteúdo do Stumble e dos blogs para postar na minha página. Este blog não serve. Não para isso. Mas sim como uma ponte. Breve boas novas. Obrigado pela atenção.

Here I am, back again. Após muitas semanas de ausência, o que terá acontecido a Mike Clayton 10? Visto sua paixão por entorpecentes, será que tomou um chá de sumiço? Virou uma couve flor? Uma abobrinha? Um… tigre? (É, malandro, sou tigre e esse é meu ano). Ou tá na mesma merda?  Como esse blog parece ter apenas um leitor (e fico muito orgulhoso por ter uma follower tão interessante), vou tentar incrementar a coisa, chega de historinha de chapação e auto-piedade.

Trata-se de um teste. Vou apresentar 5 alternartivas sobre o que se sucedeu nesse hiato de posts. Participe, responda, escolha uma resposta e concorra a algo bacana. Sei lá, o prêmio pode ser o diálogo de um filme de Luchino Visconti, a definição da Terra segundo Douglas Adams, uma foto da Priscila do BBB fazendo a dança do amortecedor, uma camisa do Dunga ou um Aston Martin DB9. Mas não é disso que quero falar. Como diz Osho, o guru dos 1000 Rolls Royces, mas que manda muito bem, você nunca pode dizer que conhece uma pessoa. Uma pessoa é um processo infinito. Aleluia. Então…

…vamos ao teste:

1. Michael Clayton entrou na Ordem do Vegetal e tatuou asas de anjo nas costas. Depois conheceu a filha de um desembargador, foi pescar no pantanal e se deu bem com o sogro. Trocou de drogas: aprendeu num filme que tem umas plantinhas, que… ôxe…

2. MC entrou em depressão profunda, além dos entorpecentes habituais passou a tomar pinga, trocou o dia pela noite, queimou o filme, foi internado, saiu e recaiu dois dias depois. Ê vidão.

3. MC tá numa boa. Descobriu seu lado gay, faz almôndega no dark room, toma balinha e Special K. Não tem parceiro fixo: um novo universo se abriu perante ele. Ou vice-versa. Curso de letras é super GLS!

4. Ah, meus camaradinhas, MC está galgando alguma coisa: largou as doideiras extremas, arrumou uma namorada depois de meses de seca e suspira toda vez que pensa nela. Mas como não é santo, aplicou a menina na codeína. Não espalha.

5. MC aproveitou as iniciais e se mudou pro Morro do Buraco Quente (?). Lá, trabalha como olheiro do tráfico em troca de crack e marmitex. Nas horas vagas compõe polcas e mazurcas. Mas não toca, pois foi ameaçado de morte. Compensa, a pedra faz tóim-ióim-ióim.

Obs: A hipótese 4 é boa demais pra ser verdade.

Obs 2: Os vencedores serão aqueles que derem justificativas ainda mais idiotas que esse texto.

A vida, em tese, é muito simples. Causa e efeito, crime e castigo. Em tese. Na prática são outros 500. Quero dizer: não consigo introjetar esses princípios básicos. Só me importo com o dia de hoje, danem-se as consequências.  Diminuí bastante o uso de crack, em compensação quando uso chuto o balde. Como há uns dez dias, quando vendi o celular. Como essa madrugada: estava em jejum, fumando na casa de um cara com outras duas pessoas. Dei um puxo mais forte e tive uma convulsão. Isso mesmo. E  apesar desse evento traumático, quando acabou dei força para comprarmos mais. A insanidade ataca outra vez. Mas tenho assimilado uma coisa: o que faço define quem sou, mas tenho que me perdoar e resgatar o cara maduro que existe em mim. Parece um caso de dupla personalidade. A análise estava me fazendo bem, mas estou sem grana para continuar a pagar. A faculdade não tem ajudado muito: professores despreparados, aulas maçantes. Mas li A Metamorfose do Kafka e adorei.

A convulsão foi horrível. Me deu amnésia, não só do momento, como dos últimos dias. Céus, o que estou fazendo com meu cérebro, minha saúde? As drogas drenam toda minha energia, durmo tarde, acordo tarde. E me sinto terrivelmente sozinho. Fiz amizade na faculdade, na minha sala só tem mulher, com exceção de uns 4 caras. Como é típico de mim, escolhi a pessoa errada: ela é casada. Não tem nenhum atributo físico especial, mas me julga culto e inteligente.  Diz que estou me disperdiçando. Sou realmente contraditório: inseguro, baixa auto-estima, mas com um certo complexo de superioridade. Faço questão de ser participativo na aula para mostrar que conheço muito de cinema e um pouco de literatura, bem mais que a maioria. Aí muitos me acham pedante. Me importo demais com a opinião alheia e muito pouco com o auto-respeito.

Chega de lamentar. Tenho medo de morrer: isso devastaria minha mãe e minha irmã. Espero que o próximo post seja mais positivo.

Dei uma recaída braba no carnaval. Passei com uma ficante tresloucada e outro casal no chalé onde eu morava até perder minha namorada. Drogas e video game. Meu Deus, como é fácil sair do caminho e retroceder. Viver guiado pela pulsão de morte é fácil, mas isso não é vida, é estado vegetativo. Difícil é continuar a rotina sem chutar o balde.

Não procurei a menina com quem passei o carnaval. Na sexta fui visitar a sepultura da namorada. Fiquei lá ajoelhado e chorando e rezando. Aí no sábado aconteceu a coisa mais inusitada: estava bebendo cerveja no buteco de sempre quando duas garotas de vinte e poucos anos sentaram na minha mesa. Conversamos a tarde inteira. Fiquei bêbado. E tinha que comprar a maldita codeína. Deixei-as no bar e falei que voltaria em meia hora. Demorou um pouco mais. Quando voltei, já tinham ido embora. Pusta vacilo. Estou com o telefone delas, mas algo me diz que tive a minha chance e joguei fora. São jovens e bonitas demais, tava cheio de neguinho paquerando e elas só davam atenção pra mim. Auto-sabotagem. Aí fiquei deprimido e fui dormir no chalé, de onde só voltei hoje. Dois dias seguidos sem codeína fizeram a abstinência atacar. Aí a primeira coisa que fiz hoje, depois de uma noite de insônia, foi comprar as pílulas.

O ponto crucial do filme Matrix é quando Morpheus oferece a Neo duas pílulas: uma azul, outra vermelha. A azul o manteria alienado, vegetando dentro da Matrix, sequer imaginando que há um mundo real lá fora. A vermelha tiraria o véu que cobre a realidade artificial, pela primeira vez Neo veria as coisas como elas são de fato, pro bem ou pro mal. Ele toma a vermelha e sofre, parte dele morre, mas outra renasce com uma nova consciência.

Até quando vou ficar tomando a pílula azul? Vale a pena?

É, meus leitores inexistentes, dei uma sumida. Graças a Deus e ao bom senso, desde a última vez que escrevi só tive uma recaída na pedra – este fim de semana. Em compensação tem sido dureza não aumentar a dose de codeína. Mas, no geral, estou me sentindo melhor. Matriculei no curso de letras, tenho ido às aulas, procuro me socializar. Isso me faz sentir mais gente, gera identificação. Você começa a perceber que não é tão diferente assim como quando está imerso na alienação da droga. Que novas experiências podem ser tão agradáveis quanto alterar a consciência com narcóticos. E que ser normal – não digo totalmente normal, isso pra mim é impossível, mas fazer as coisas que todo mundo faz – é um desafio bacana. Nada como um dia depois de outro dia produtivo. Há lugar pra mim nesse mundo, e o mais surpreendente, talvez eu seja necessário, talvez consiga fazer uma minúscula diferença. Começando por mim mesmo.

E voltei a fumar pedra nos três dias seguintes. Na sexta feira dei um basta. Já estava na insanidade. Me comprometi a não voltar a usar por um bom tempo, de preferência nunca mais. Mas o estrago já estava feito. No domingo a abstinência atacou. Suor frio, taquicardia, ansiedade, mal estar. Nesses momentos recorro à codeína, mas já tinha tomado a última dose na madrugada de sábado. Outro ato impulsivo: eram 3 da manhã e já ia dormir quando vi no telecine cult que ia passar Matadouro 5. Nunca tinha visto, e é a adaptação de um dos meus livros favoritos. Aí fui correndo na farmácia e tomei quase uma caixa inteira de comprimidos. Insanidade. Como sempre, foi bom enquanto durou o efeito.

Ninguém conhece mais o livro ou o filme. Kurt Vonnegut relata sua experiência de recruta americano na Segunda Guerra, quando foi preso pelos alemães e testemunhou o bombardeio de Dresden por parte dos aliados.  Um libelo anti-belicista com toques de humor ácido e da psicodelia dos anos 60/70. O episódio virou tabu nos anos posteriores, pois morreram mais civis em Dresden do que em Hiroshima. Nenhum outro ataque aéreo teve tantas vítimas, e a tal cidade não era um alvo militar: não havia tropas alemãs nem fábricas de armamentos lá. Por outro lado, era um lugar encantador, com belíssimos prédios góticos ou renascentistas, algo assim. Numa dessas ironias perversas da guerra, Vonnegut e os outros americanos sobreviveram, pois estavam presos num abrigo anti-aéreo que antes servia de matadouro de gado, (daí o título) mas os alemães que os capturaram, não.

Que bom, acho que pela primeira vez nesse blog escrevi um parágrafo inteiro sem mencionar droga alguma. Mas só escrevo sob efeito de alguma coisa. É tudo muito triste e estúpido, concluo pela enésima vez. E constato que só há um caminho para me salvar: a abstinência, a renúncia. A cada dia que me drogo reforço a impossibilidade de viver sóbrio. Pensamentos assim levam ao desespero. Não estou nada bem.

Losing my religion, como diz aquela música do R.E.M.  Acabei de voltar de uma sessão de crack que durou 5 horas. Gastei 40 reais. Já foi muito pior: com minha namorada gastávamos dez vezes mais. Você deve estar se perguntando: por que eu faço isso? Um misto de vida desprovida de motivação e significado, falta de bons laços sociais,  lembranças eufóricas e a tal dependência psicológica. Estou sempre buscando o estupor total, uma petite mort, uma espécie de orgasmo, uma sensação de separação entre corpo e mente. Achava que o termo tinha sido cunhado por Freud ou Jung. A wikipedia não esclarece muito. Nem sempre isso acontece. Se não acontece, como hoje, você já faz planos para uma próxima vez. Aproveitando que a mãe do vizinho viajou e ele está sozinho em casa. Porque em geral fumo na rua mesmo, dentro do carro, a maior sujeira. E mesmo quando o tal gozo acontece, você quer experimentar aquilo de novo.

A fissura é algo indescritível. Obsessão, compulsão, angústia, tudo ao mesmo tempo. O pior é que a primeira vez que fumei foi há 12 anos. E nunca me deixei viciar. Enquanto você fuma o “mesclado”, com maconha, dá pra controlar, a cannabis corta a fissura. Mas se for na lata ou cachimbo, o efeito é muito maior, assim como a rebordosa. E há cerca de um ano, encontrei um amigo de infância que morava perto da minha ex-casa (moravam eu e a namorada, hoje moro com minha mãe) e que estava enfiado nisso até o pescoço. Ele aproveitava a liberdade que meu lar proporcionava e financiava os primeiros 100 ou 200 reais. Aí uma hora acabava e ele ficava botando pilha para buscarmos mais. Nessa época, ficávamos 48 horas ininterruptas por conta da nóia.

Em 31 de maio passado aconteceu uma tragédia. Não quero falar sobre isso agora. Ok, vou falar. Misturamos codeína, metadona, rivotril, rohypnol e crack. Começamos na quinta. Não tenho idéia do que fiz no dia seguinte, amnésia total, nem no sábado. Mas na madrugada de domingo, às 2 da manhã, imediatamente recobrei a consciência e a lucidez. Minha namorada jazia morta ao meu lado no sofá da sala. Chamei o SAMU. Eles disseram que ela estava morta há 4 horas.

Muita gente disse que eu omiti socorro. Pura maldade, primeiro porque ninguém estava lá e segundo porque eu estava tão dopado quanto ela e estava apagado no momento da morte. Lembro desse dia, à tarde, ela rindo de mim porque eu estava conversando com pessoas imaginárias. Lembro do motorista da minha avó chegando por volta das 18:00. Aí apaguei.

Vou transcrever o diário que fiz quando estava internado. Chorava o dia inteiro na primeira semana. Aí passei a chorar só quando falava dela. Hoje não choro mais. Fiquei 40 dias numa clínica espírita, mas minha fé é fraca, sou um frouxo mesmo e duas semanas depois de sair recaí. Tinha que seguir os tais 12 passos e ir nas reuniões do Narcóticos Anônimos todo dia. Tomava Revia, um remédio usado contra alcoolismo e dependência de opióides. Se usasse codeína ia passar muito mal. Maconha já foi minha favorita, mas quando sua vida está um inferno e você se sente culpado pela morte do pai e da namorada, é uma droga contra-indicada. Aí recaí no crack. Quando vendi o som do carro por 30 reais percebi que estava prestando vestibular pra mendigo. E pedi pra ser internado de novo. Foi diferente da primeira, não frequentava os estudos bíblicos, manipulava os médicos pra ficar dopado, em suma: voltei a ser a criança mimada e inconsequente de sempre.

Já basta de notícia ruim por hoje. Pedi pro meu psicológo para entrar em contato com o padrinho do Daime, de modo que pode ser que eu vá no próximo sábado. O padrinho era amigo do meu tio, cheiravam quilos de pó juntos, até que escolheram caminhos diferentes e se afastaram. Meu tio morreu assassinado pela polícia na cracolândia daqui, num episódio meio nebuloso.

Fui no cinema. Avatar em 3-D estava esgotado, então escolhi Contatos do 4to. Grau. Começa com um depoimento da atriz principal dizendo que os eventos a seguir são verídicos e que alguns trechos são vídeos autênticos gravados pela psicóloga Abby Tyler; sessões de hipnose em que seus pacientes relatam episódios de abdução alienígena. Criaturas com o semblante de corujas supostamente aterrorizam as madrugadas de dezenas de moradores de uma pequena cidade chamada Nome, no Alasca. Com a ajuda de um especialista, a Dra. Abby descobre que nas gravações os entes do além se comunicam em sumério, a língua mais antiga conhecida.

Bom demais para ser verdade. Como todo bom escapista, sou aficcionado por ocultismo, especialmente por histórias de OVNIs. Na internet não acho registro algum da psicóloga, descubro que os vídeos “reais” são encenações e que a distribuidora Columbia doou dinheiro para a cidade a fim de criar notícias e obituários fictícios. Uma espécie de versão ufológica de A Bruxa de Blair, puro marketing.

No meio de tantas mentiras, alguns fatos curiosos. A cidade onde o filme se passa tem um histórico impressionante de desaparecimentos e parece ser alvo da atenção do FBI, mas daí para concluirmos que há uma onda de abduções no local é um passo longo demais. Por outro lado, há quem diga que a ausência de informações sobre a Dra. Abby na internet é parte de uma operação de acobertamento por parte de agências governamentais obscuras. Concluindo: a única abdução comprovada é a da verdade. E jamais vamos saber o que houve em Nome.

Na saída, vejo um beija-flor preso dentro do shopping, batendo repetidamente contra o vidro. Este sou eu, repetindo o mesmo comportamento e esperando um resultado diferente.

Fiquei feliz com meu primeiro comentário – a sensação de que você está escrevendo num blog que ninguém lê não é nova, mas também não é boa.

Acabou me estimulando a escrever mais. Têm falado comigo muito sobre Santo Daime. Uma conhecida, que tinha fama de quem faz sexo por cocaína – nesse meio as pessoas são ainda mais cruéis ao julgarem seus pares – me contou que está limpa há seis meses graças ao “chazinho” deles. Me chamou para ir no próximo sábado. Meu psicólogo ficou fazendo apologia ao Daime hoje. Saí da consulta pensando nessa coincidência, sincronicidade. Apesar da minha insistência em cultivar esse estilo de vida hedonista e auto-destrutivo, o cara falou que estou prestes a ter um despertar espiritual. Uau!

Já que tomo tanta porcaria, porque não tentar o chá, que não deixa de ser uma droga? Tenho medo da tal “peia”, o momento em que você entra numa bad trip depois de tomar. Medo de descobrir coisas sobre mim mesmo que não quero saber. Caralho, como sou pessimista. E cagão.

Por outro lado, há toda outra parte de mim que implora para ser libertada. Não tenho o perfil do drogado estereotipado. Não tenho tatuagem nem piercing, uso roupas discretas, falo pouco, me reprimo muito. Talvez eu vá: uma hora ou outra vou ser confrontado com o lado escuro de Michael Clayton; ou será que já conheço esse lado e perdi contato com o lado claro?

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